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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Uso do Transporte Animal na Colonização do Interior do Brasil

 Tropa de mulas nos caminhos do ouro (1).

A ocupação e o povoamento do país desde os tempos do Brasil Colônia tiveram como fator predominante o uso do transporte animal para a circulação de pessoas e mercadorias. “Híbridas do cruzamento do jumento com égua as mulas são extremamente fortes e resistentes para o transporte”. “Já em 1732 o preador rio-grandense Cristóvão Pereira de Abreu teria trazido até São Paulo, destinado às regiões mineiras, 800 mulas e 3000 cavalos (...)” (KEATING & MARANHÃO, 2008 págs. 201 e 191).

 Viajantes no interior do país, no séc. XVIII (2).

Nas primeiras décadas do século XVIII a corrida do ouro originou uma economia interna que não dependia de Portugal. Sorocaba (vila paulista situada a 700 km de Vila Rica) era um exemplo da força da economia aurífera. “Todo ano a vila sediava a maior feira comercial da colônia, voltada, sobretudo para os mercados de Minas Gerais e de seus fornecedores. O principal produto negociado eram as bestas de cargas, criadas no Rio Grande do Sul. Por volta de 1750 cerca de 10 mil animais eram vendidos anualmente, fazendo girar uma robusta rede de comércio e serviços. As hospedarias e tabernas ficavam repletas de homens de negócio, vendedores de produtos finos, artistas de circo, jogadores profissionais, trapaceiros e mulheres de vida alegre” (FIGUEIREDO, 2011, págs. 244 e 245). O comércio de bestas favoreceu a conexão entre núcleos populacionais (arraiais e vilas) antes economicamente independentes.

Ranchos nos caminhos dos tropeiros (3).

De Sorocaba as tropas se encaminhavam para as Gerais pelo Caminho Velho, transportando alimentos, equipamentos, couro e voltavam carregadas de ouro. “Logo passaram a usar caminhos e descaminhos, estimulando a criação de vilas e povoados para que pudessem ser abastecidas, descansar e trocar os animais. Uma verdadeira rede urbana se formou ao longo desses caminhos, a partir de ranchos, pousos o comércio e a prestação de serviços” (KEATING & MARANHÃO, 2008  págs. 202 e 203).


 
Comitiva (tropa) atravessando o rio (4)

Em seus cadernos de viagem o botânico Karl Friedrich Phillip von Martius relata o incessante movimento  das tropas de mulas entre São Paulo e Minas Gerais, em 1817: “Cada tropa constava de vinte até cinqüenta mulas, conduzidas por um arrieiro a cavalo, incumbido da direção geral do comboio. É quem dá ordem de partida, de descanso, de pernoite, do equilíbrio da carga, do estado das cangalhas, das condições dos animais, se não estão feridos ou desferrados. Sob suas ordens os tocadores viajam a pé, cada qual incumbido de lote de sete mulas, que devem carregar e descarregar, tratar e levar ao pasto, assim como cozinhar para si e para os demais viajantes. O arrieiro, geralmente mulato liberto, também se ocupada da compra e venda de mercadorias na cidade, a representar o comissário do dono da tropa (...)” (GOMES, 2007, pág. 129). Segundo o historiador Celso Furtado (no livro Formação Econômica do Brasil), as mulas constituíam a verdadeira infra-estrutura da economia nos tempos da mineração. Mesmo com a inserção das ferrovias a partir de 1860, os muares foram essenciais nos pequenos trajetos onde a malha ferroviária não cobria. E a utilização do transporte animal predominou até meados de 1930, com o advento da indústria automobilística (KEATING & MARANHÃO, 2008 pág. 189).

Venda para o abastecimento de tropeiros, viajantes, garimpeiros (5).

As mulas burros e cavalos como meio de transporte também foram bastante utilizados em Pitangui, a Sétima Vila fundada nos territórios da exploração aurífera nas Gerais, que fazia parte das rotas e caminhos do ouro que ligavam o litoral ao interior do Brasil Colônia. “Pitangui foi durante o século XVIII um importante foco de mineração aurífera, porta de entrada para o sertão oeste, passagem obrigatória para muitos que se dirigiam às Minas de Goiás. A transformação do arraial de Pitangui em Vila em 1715 conferiu àquele centro urbano papel central de todo aquele sertão” (CATÃO, 2011, pág. 11).

Antiga Matriz de N.S. Pilar de Pitangui.

Ao observarmos as fotos desta postagem podemos constatar a utilização deste meio de transporte em Pitangui, no início do século XX. Tal fato ganha mais evidências com os relatos a seguir: “Papai passou depois a ser cometa-viajante com tropas no lugar do tio Borba. Foram muitas experiências que ele ganhou, viajando pelos sertões de Minas, enfrentando sol e chuva, dormindo em barracas.” - D. Amália Rocha Mendes se referindo ao pai Lacerdino Rocha – (MENDES, 1999, pág.47).

Sr. Lacerdino Rocha em sua montaria (6).

O sr. Manoel Ricardo Fiúza, em um bate-papo informal em junho de 2012, me contou que seu pai o sr. Antônio Fiúza, médico, ia a cavalo visitar os seus pacientes, no entorno de Pitangui. “Lá em casa naquele tempo situada a Rua Floriano Peixoto, 69, antiga rua da Lavagem, existia uma cocheira onde ficavam abrigados três cavalos de nome "Mato Grosso", "Passa-tempo" e "Guarani" que eram utilizados para atendimentos não muito distantes e em estradas de condições de melhor uso.E uma mula muito robusta e boa de estrada, de nome "Rivera" para os atendimentos mais distantes que às vezes chegavam a dez léguas, ou seja 60 km. Mantinha sempre pelo menos um tratador para esses animais. Acontecia também que em se tratando de atendimentos noturnos, em dias de chuva, ou locais de difícil acesso ou localização, o emissário que vinha a procura do atendimento médico urgente, trazia já um animal selado e acompanhava meu Pai na ida e na volta”. 

 Homens e o seu meio de transporte. Casarão na Praça da Câmara.

Meu pai, João Batista Morato, conta que o meu avô João Morato trabalhou na construção de algumas estradas nos arredores de Pitangui (Coqueiros e Cunha) e que os trajetos foram abertos na base da picareta e a terra era retirada nos carroções puxados por mulas. Assim como a areia retirada do rio Pará, utilizada nas construções, também era transportada por carroças com tração animal. Fui informado também que até o nosso Pe. Antônio Pontello ia a cavalo confessar os fiéis enfermos e levar a Comunhão.  Outra importante prova testemunhal era o movimentado ramo da Selaria em Pitangui, representado pelo Sr. Carlito Seleiro que há décadas se dedica à arte deste ofício.


Casarão do Monsenhor Vicente.


Atualmente em Pitangui poucas pessoas (como o sr. Bernardinho do Leite) utilizam a força dos muares e ou eqüinos para o transporte ou trabalho. E em algumas fazendas (talvez pela praticidade e custo benefício) as motos estão substituindo os animais, na lida do campo. Mas as cavalgadas e romarias que são organizadas periodicamente no município, conservam o hábito da montaria, por lazer. Pela representatividade histórica, pela contribuição efetiva para o desenvolvimento do país, e como atrativo turístico seria muito interessante criar o Museu do Tropeiro em Pitangui para reunir e preservar utensílios, objetos e informações (patrimônio cultural imaterial) sobre o uso do transporte animal na colonização do interior do Brasil.

Leonardo Silva Morato –Turismólogo

Comércio e animais na Praça da Câmara.



Fontes da pesquisa:
 Livros:
- CATÃO, Leandro Pena (Org.) Pitangui Colonial – História e Memória. Editora Crisálida. Belo Horizonte, 2011.
- FIGUEIREDO, Lucas. Boa Ventura – A corrida do ouro no Brasil (1697 – 1810). Editora Record. 2ª Ed. Rio de Janeiro, 2011.
- FONSECA, Cláudia Damasceno. Arraiais e Vilas D’el Rei – Espaço e Poder nas Minas setecentistas. Editora UFMG. Belo Horizonte, 2011.
- GOMES, Laurentino. 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. Editora Planeta. 4ª Ed. São Paulo, 2007.
- KEATING, Vallandro & MARANHÃO, Ricardo. Caminhos da Conquista – A Formação do Espaço Brasileiro. Editora Terceiro Nome. São Paulo, 2008.
- MENDES, Amália Rocha. Memória do Sobrado. Editora Matiz Bureau de Serviços Gráficos. Divinópolis-MG, 1999.

Imagens:
1 - Ricardo Maranhão - Caminhos da Conquista.
2 - Rugendas - Compêndio de História do Brasil.
3 - Rugendas - Arraiais e Vilas D’el Rei.
4 - Debret - Boa Ventura.
5 - Ricardo Maranhão - Caminhos da Conquista.
6 - Foto - Memória do Sobrado.

Fotos: 
- Pitangui na primeira metade do século XX - autor(es) desconhecido(s) .

4 comentários:

  1. Caro Leonardo: Parabéns pela postagem sobre o transporte animal na colonização do interior do Brasil, um verdadeiro resgate histórico e sociológico, englobando nossa região. Enfoque muito feliz e, sobretudo, muito oportuno por destacar, mais uma vez, a participação da Sétima Vila do Ouro no cenário nacional. Está passando a hora de Pitangui deixar de ser penas um poema silencioso para ocupar o lugar que é merecidamente seu na História, assumindo inclusive a sua natural vocação turística até agora eclipsada. Abraço. Anastácio Pinto. De cá do Patafufo.

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    1. Caro Anastácio, obrigado por esta participação que valoriza o trabalho do Daqui de Pitangui. De fora do planejamento e das decisões culturais, daqui fazemos a nossa parte para provocar reflexões e atitudes em prol dessa viabilidade real para Pitangui, chamada Turismo!!! Um abraço.

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  2. Prezado Leonardo: Muito boa postagem em que fica evidenciada a coragem e determinação de nossos maiores para atingir seus objetivos e cumprimento do dever.Quantas saudades e boas recordações! Sem falar no bom exemplo.
    Um abraço do Manoel Fiuza

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    1. Sem dúvida, Manoel temos muito do que nos orgulhar. E são os bom exemplos que nos movem a labutar por Pitangui. Um fraterno abraço.

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